Wednesday, July 27, 2011

Coluna de Frei Beto: Os gays e a bíblia

É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos.

No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”...).

Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc).

No 60º aniversário da Decclaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.

A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu Catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.

Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hétero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.

São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a homofobia não se justifica apenas pela violência física sofrida por travestis, transexuais, lésbicas etc. Mais grave é a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.

A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama...).

Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?

Ora, direis ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.

Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?

Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.

*Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.
Postado em 19/07/2011 ás 09:15

1 comment:

  1. google trans: It is at least surprising to note the pressures on the Senate to avoid the law criminalizing homophobia. Suffering from amnesia who insist segregate, discriminate, demonize and condemn homosexual couples.

    In Jesus' time, the pagans were segregated, the sick, those who exercised certain professional activities, such as butchers and income tax. With all these Jesus had an inclusive attitude. Later, victimized indigenous, blacks, Jews and heretics. Today, homosexuals, Muslims and poor migrants (including "people differentiated "...).

    Relations between persons of the same sex are still illegal in over 80 nations. In some Islamic countries they are punished with physical harm or death (Saudi Arabia, Iran, UAE, Yemen, Nigeria etc).

    On the 60th anniversary of the Universal Declaration of Human Rights Decclaração in 2008, 27 European Union member countries signed the UN resolution by the "universal decriminalization of homosexuality."

    The Catholic Church took a small step forward by including in its Catechism of the requirement to avoid discrimination of homosexuals. However, the ecclesiastical authorities are silent when it comes to speaking out against homophobia. And yet, if he heard his disagreement with the Supreme Court's right to approve civil unions for homosexual.

    Nobody chooses to be homosexual or heterosexual. The person born that way. And in the light of the Gospel, the Church has no right to face anyone as homosexual or heterosexual, but as the son of God, called to communion with Him and with one another, the recipient of divine grace.

    Are alarming rates of assaults and murders of homosexuals in Brazil. The urgency of a law against homophobia is justified not only by physical violence experienced by transsexuals, lesbians and so on. More serious is the symbolic violence, prosecute and fosters social culture of demonization.

    The Catholic Church no longer condemns homosexuals, but prevents them express their love for the same sex. But not all love comes from God? It says the Letter of John (I, 7) that "he who loves knows God" (note that John does not say that God loves those who know ...).

    Why pretend to ignore that marriage requires love and want this union to remain outside the law? In marriage the bride and groom are the true ministers. And not the priest, as many imagine. You can deny the essential theology of the sacramental union of two people in love, even of the same sex?

    Now, you say listen to the Bible! Yes, in the patriarchal context in which it was written would be strange to approve homosexuality. But many passages in the subtending as the love of David for Jonathan (I Samuel 18), the Roman centurion interested in the healing of his servant (Luke 7) and the "born eunuchs" (Matthew 19). And to take the Bible literally, we would move to the sword all who profess different beliefs from ours and hate father and mother to truly follow Jesus.

    It should be singled out to move from hermeneutics hermeneutics pluralized. Yesterday, the Catholic Church accused the Jews of Jesus' killers, condemned to limbo children who die without baptism; considered legitimate slavery and blamed the loan interest. Why exclude homosexual couples from civil and religious rights?

    Sin is to accept the mechanisms of exclusion and select humans by biological, racial, ethnic or sexual. All are beloved children of God. All have the essential vocation to love and be loved. The law is made for the person, Jesus insists, not the person to the law.

    * Frei Betto is a writer and adviser to social movements, the author of "A man named Jesus" (Rocco), among other books.

    ReplyDelete